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A palavra-presente

É com imensa satisfação, minhas leitoras queridas, que hoje vos apresento nossa crítica literária, Guacira Cavalcante. Guacira periodicamente irá escrever e indicar livros infantis. Será bem interessante pois assim poderemos ter uma referência antes de comprar os livros para nossos filhos. Segue um texto de Guacira e em breve publicaremos sua primeira crítica literária infantil. Obrigada Gal pela sua rica colaboração para o nosso Blog! Lika e Teca.

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Para a Alice, minha sobrinha que tem nome de fantasia

 “…A verdade sai da boca das crianças. Muito próximas ainda da natureza, são primas do vento e do mar: seus balbucios oferecem, a quem sabe ouvi-los, largos e vagos ensinamentos…”

O trecho transcrito acima foi retirado do livro “As palavras”, de Sartre. Outro dia, ao reler essa obra, fiquei pensando na importância do que escreveu o filósofo. Saber ouvir e, o que é mais difícil, dar o devido valor ao que uma criança diz. A gente escuta tanta coisa, todos os dias, que vai achando que os alunos são todos iguais, que em um sistema de ensino em que o objetivo é um vestibular maçante, a cabeça das crianças e adolescentes só pode estar cheia de idéias uniformes como a nossa ignorância.

Sempre tive o costume de ler poesia, diariamente, numa constante tentativa de roubar a beleza da obra e levá-la para a vida.  Quando conheci Alberto Caeiro, fui tomada por uma necessidade de perceber mais o sentimento da criança, já que esse heterônimo possui o olhar infantil. A poesia de Pessoa me fez querer enxergar a partir do olhar dos pequenos e hoje, ao reler as palavras de Sartre, estabeleço um diálogo entre eles.

“A verdade sai da boca das crianças” sem o impedimento dos anos em que nos ensinam a perceber apenas o que o adulto vê, a pensar e a falar coletivamente. Elas “são primas do vento e do mar”, pois abrigam uma imensidão que ainda não conseguiu ser contida, o limite é o infinito. Suas palavras são livres e, assim como os poetas, elas têm o olhar aberto para as maravilhas do mundo. Tudo é fantasticamente novo e muito mais sentido que pensado. Portanto, com o imaginário aberto, vão espalhando beleza para quem sabe ouvir.

A criança que encontra pessoas dispostas a valorizar seus presentes (palavras) consegue ser mais segura, criativa e crítica. Tenho visto bons exemplos em famílias que valorizam o que é dividido. Ao ouvir que a imaginação é interessante para quem ouve e que seus argumentos são importantes, ela começa a demonstrar autonomia para pensar criticamente. E basta apenas ouvir…É tão simples que fica fácil esquecer em salas tão cheias de alunos ou em casa, cansado do trabalho.

Mas e os pais e professores, o que ganham com esse pequeno gesto? Como já disse Sartre, “largos e vagos ensinamentos”. Enxergarão sem tantas amarras e, com o pensamento vasto e impreciso, ganharão sensibilidade e criatividade. Podem até mesmo ampliar a percepção de mundo, já que as crianças demonstram diariamente como é bom ter os olhos sempre abertos.

Engraçado, sempre tive uma necessidade muito grande de ler, conversar, de ser presenteada por palavras diárias, mas ninguém nunca havia sinalizado que percebera isso em mim. Um dia, minha sobrinha disse a seguinte frase em um de nossos maravilhosos momentos de conversa:

– Tia, tudo na sua vida é uma palavra. 

E assim ficou sendo. Alice definiu a minha vida em segundos, para ela, bastou apenas abrir os olhos, para mim, escutar.

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Guacira Cavalcante é formada em Letras, trabalhou durante sete anos desenvolvendo projetos de incentivo à leitura, ensina há seis e, de vez em quando, participa de comissões de avaliação de livros. Desde o ano passado, faz faculdade de psicologia e é leitora voraz de livros de literatura (infantil também). Este texto foi escrito em 2004 para o site da Asa da Palavra.  Eu e Alice tínhamos iniciado há oito anos uma longa conversa que perdura até hoje.

Guacira e sua sobrinha Alice, grande inspiradora desse texto lindo.

Guacira e sua sobrinha Alice, grande inspiradora desse texto lindo.

 

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