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Mães como nós: Leila, mãe brasileira nos EUA

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Quem vai contar um pouco pra nós sobre a rotina de mãe é Leila, baiana, mas que mora nos EUA com seu marido e filho, sem família, sem babá, trabalhando todo dia, e relatando pra nós essa experiência com todos os seus ônus e bônus. Espero que gostem, pois ela já me deu muita dica boa no quesito maternidade!

MVF: Conte um pouco o que te levou a começar uma família nos EUA.
Leila: Se dá pra resumir em uma palavra, eu diria que foi amor. Me apaixonei pelo meu marido, americano, e escolhemos ficar aqui e começar uma vida nova. Hoje posso dizer que deixar família, amigos e país pra trás foi difícil, porém foi a melhor decisão da minha vida. Sou extremamente feliz e realizada aqui.

MVF: O que difere o pré natal da gestante brasileira para a americana, pelo que você conhece dos dois casos?
Leila: Não posso julgar o pré-natal brasileiro, mas pelo que conheço , a medicina brasileira é mais focada no parto cesárea , sem nem oferecer como primeira opção o parto natural. Não sei se por falta de cultura, por pressa dos médicos, comodismo ou medo das pacientes que não têm informação. Aqui, não se fala em cesárea a não ser que voce mencione. Desde o primeiro momento a idéia é parto normal, obedecendo seu corpo e o bebe. O pré-natal é feito seguindo as visitas mensais, que depois passam pra de 15 em 15 dias e quando voce completa 37 semanas as visitas são semanais. Passando das 40 semanas voce vai de 2 em 2 dias pra monitorar , até o momento que seu baby entende que é hora de nascer. Um outro detalhe que notei são as ultra-sons , eu só fiz duas, todos os outros exames foram feitos apenas escutando a barriga, medindo, etc. O foco é cuidar do bebe e não satisfazer a curiosidade dos pais e os médicos entendem que não é necessário expor o bebe a radiação desnecessária.

MVF: Tem sido muito falado aqui no Brasil sobre humanização do parto, já que somos recorde em cesariana. Como foi o seu, o que você gostaria que fosse diferente, e qual sua opinião sobre a situação brasileira?
Leila: Meu parto foi natural hospitalar. Logo quando engravidei procurei a possibilidade de ter meu parto em casa, porém o custo era grande e meu plano de saúde não cobriria. Tenho uma amiga brasileira que é doula e ela me ajudou, via internet, muito com todas as minhas dúvidas, escolhas e me incentivou a tentar o parto natural.
Meu pensamento sempre foi, por que vou deixar me cortarem, me expor a infecção hospitalar, me privar de cuidar do meu filho assim que ele nascer se meu corpo é completamente capaz de fazer tudo isso?
E foi assim que escrevi meu plano de parto, listando tudo que eu queria e não queria no meu parto, quem eu queria no quarto, quantas pessoas, a luz, a música , solicitando que não me oferecessem anestesia a não ser que eu pedisse e tudo mais que eu entendesse necessário pra que minha experiência de parto fosse minha e não do hospital. Minha médica leu e assinou o documento , ficando com uma cópia que ela entregou ao hospital.
Meu parto foi normal, lindo e com a presença da minha família e marido. Meu filho não saiu do meu lado nem por 1 minuto desde o momento que nasceu, nasceu direto nos meus braços ainda com o cordão conectado, meu marido cortou o cordão , ele foi limpo do meu lado, amamentei quando ele tinha menos de 10 minutos de vida. Meu marido deu banho dentro do quarto e com 1 hora de nascido eu ja estava em de pé indo ao banheiro e cuidando do meu filho.
Eu acredito que no Brasil o que existe é falta de informação e também boa vontade dos médicos. É muito fácil pra um médica marcar uma cesárea pra o dia e a hora que ele quiser, evitando fim de semanas, madrugadas etc, além do custo, até onde eu sei o hospital / médico, recebe mais por uma cesariana do que por um parto natural, mas posso estar errada e não quero julgar, acredito que é um problema de informação e cultura. Outro detalhe são as mães, já ouvi de algumas amigas que marcaram o parto por conveniência, por que queriam viajar, ou pela data ser bonitinha… Não sei nem como justificar isso, cada cabeça seu mundo. Eu não troco meu parto normal por uma cirurgia de grande porte de maneira nenhuma.
Se tiver na duvida, quiser informação, procura uma doula, indico a minha de olhos fechados, Luana é atenciosa, tem experiência e não vai julgar suas opções, mas o papel da doula antes e depois do parto é ser a amiga, conselheira, a força que a mãe precisa.

MVF: Na minha opinião, amamentar é a maior prova de amor de uma mãe ao seu bebê, porque não é fácil. Como foi pra você? E conte sobre o hábito das mamães americanas de tirar e armazenar leite.
Leila: Pra mim foi extremamente fácil, eu sei que algumas mães tem problemas, ficam nervosas, o peito dói, racha etc. Mas a ajuda da doula foi muito importante pra mim. Minha amiga e doula , Luana Arnhold, mesmo via internet, me explicou desde o começo que amamentar não tinha que ser sofrido, não tinha que doer. Se dói é por que tá errado, o neném tá pegando errado, tira e começa novamente. Dei sorte por que Anthony, desde o começo, pegou certo e meu leite era muito. Uma outra coisa que ela me ensinou é que leite vem de acordo com a demanda, se você amamenta muito, tira o leite pra guardar (eu usei as bombinhas elétricas ), você produzirá mais leite. E foi isso que aconteceu comigo.
Tive que voltar a trabalhar quando ele tinha 2 meses e de 1 em 1 hora no trabalho eu tirava leite. Aqui é lei, o empregador tem que oferecer um ambiente para que as mamães possam tirar o leite.
Meu congelador era lotado de saquinhos , com a data e a quantidade de leite. Isso era muito bom por que me dava liberdade de poder sair sem Anthony e o papai só precisava descongelar o leite e estava tudo certo. Um detalhe importante é a escolha da mamadeira correta, por que mamar na mamadeira é mais fácil do que no peito, então se o bebê percebe que a mamadeira é fácil, ele vai acabar rejeitando o peito. Fizemos muita pesquisa e também com a ajuda da minha doula Luana, acabamos escolhendo The First Years Breastflow que simula o peito materno e diminui a quantidade de ar que o bebê engole.
Mas respondendo sua pergunta, minha experiência foi excelente, acho que você tem que ter calma, se conectar com seu bebê e ajudá-lo a mamar da maneira correta e curtir muito!

MVF: Percebo que a forma de lidar com os primeiros anos das crianças americanas é um pouco diferente das brasileiras. Acho que, até por não ter ajuda de babás e cuidadoras, procura-se dar mais independência aos pequenos. Você enxerga assim também? O que você acha legal e ruim de cada lado.
Leila: Eu tive que deixar Anthony na creche quando ele tinha 2 meses, dói muito, você se sente culpada, mas sem babá e família perto, você faz o que? Tem que se virar. Hoje vejo que foi uma das melhores coisas que fiz. Ele é extremamente independente, sociável, fica com qualquer pessoa, foi pra escola assim que fez 2 anos, nunca teve problemas de ficar na escola, brigar com coleguinhas, na verdade ele adora outras crianças e sabe dividir muito bem.
O lado bom de não ter babá, ajudante, etc é que você realmente vive 100% com seu filho, papai e mamãe estão lá o tempo todo, chova ou faça sol. Você está presente em todos os momentos, o primeiro dente, sorrido, andar etc. O lado não tão bom é arrumar tempo pra você mesma, namorar, malhar, sair com amigos. Eu faço malabarismo pra ir ao cinema, jantar fora com meu marido, namorar, ver nossos shows ou até mesmo viajar sozinhos. Meus amigos todos já sabem, não me chamem pra nada se eu não puder levar meu filho, não dá e honestamente eu não quero. Trabalho o dia todo , chego em casa e quero ficar com ele, meu fim de semana é dele, pelo menos agora, com certeza mais tarde ele que vai me deixar em casa e vai sair com os amigos, não é? Entao, é melhor aproveitar.

MVF: O que te amedronta em criar seu filho longe de metade da família?
Leila: Eu cresci em uma família grande, primos, tios, avós, bisas, todo mundo junto e criar meu filho longe disso, sem essa relação de família que vive junta é muito difícil pra mim. Não existe a possibilidade de eu voltar pro Brasil, pelo menos não agora, portanto, vamos suprindo a falta usando o FaceTime, Skype, viajando pro Brasil quando dá, etc.

MVF: Até que ponto os casos de terrorismo em escolas americanas chega a ser um incomodo em sua vida?
Leila: Honestamente, me aterrorizava muito mais quando estava no Brasil, lendo as notícias, do que se passava aqui. Morando aqui voce enxerga que não é tão diferente do que todo os crimes que acontecem no Brasil e em outro lugar do mundo. Tiros, drogas, sequestros, tudo acontece em todos os lugares. Me resta rezar e proteger da melhor maneira possível meu filho e minha família. Mas infelizmente, violência você acha em todos os lugares.

MVF: Como lidar com os dois idiomas para crianças tão pequenas. E como você se capacitou para lidar com isso (escola, livros…)?
Leila: Quando eu descobri que estava grávida, desde o primeiro momento, eu sabia que só iria falar em português com ele. Ainda grávida eu conversava com Anthony em português e criei uma relação com ele que a minha língua de comunicação é o português.
Li muitos livros, conversei com mães brasileiras, tenho uma prima em Seattle que tem dois filhos e ela só fala português com ele, conversei com o pediatra e me preparei pra todas as frustrações que viriam pela frente.
Nao é facil, ele vai demorar o dobro do tempo pra falar, vai te desafiar e responder em inglês, vai misturar as bolas, mas no fim ele vai ser fluente em todas as línguas que você introduzir na infância e terá facilidade de aprender qualquer outra língua quando crescer.
O segredo é nao desistir, continue falando em português, leia livros, veja a Galinha Pintadinha trezentas vezes, joguinhos no tablet, conversas no FaceTime. Mostre a seu filho que voce não é o alien falando a língua estranha, até porque, na cabecinha deles não existe inglês e português, existem palavras que ele vai acumulando e na hora que começam a soltar a língua, o vocabulário já está lá.

MVF: O que te faria voltar para o Brasil? O que você não abre mão na vida dos EUA (com relação ao seu filho)?
Leila: Voltar pro Brasil de vez só se eu ganhar na mega sena e for viver de brisa. Não existe voltar, meu marido é americano, não fala português fluente, eu conquistei em 5 anos aqui o que eu não consegui conquistar em uma vida inteira no Brasil.
Amo meu pais, adoro a Bahia, sonho com acarajé todo dia. Parece clichê mas é verdade, esse é o pais das oportunidades e com trabalho você conquista tudo. Infelizmente não foi o que vi no Brasil.
Em relação a Anthony, temos planos que ele passe o verão no Brasil sempre que possível e que seja matriculado em uma escola pra que ele aprenda sobre a cultura, lingua etc, mas lugar de filho é com papai e mamãe e ele crescerá aqui.. Pelo menos esse é o plano hoje.. Não sei o dia de amanha.

MVF: Que mensagem você deixa para outras mães que largaram as famílias brasileiras para criar seus filhos em outros países?
Leila: Abram seu coração, recebam a nova cultura de braços abertos, não façam comparações, vivam, se adaptem , façam escolhas que são boas pra vocês e seus filhos, mas acima de tudo, sejam felizes. Aqui ou ai no Brasil, procurem a felicidade, o resto vem com o tempo.

E aí, gente! Uma perspectiva diferente, mas o objetivo é sempre o mesmo, né? A felicidade!
Um beijo a todas! Lika.

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